Ácido folínico e autismo (TEA): o que muda após a retratação do estudo?
Antes de continuar, uma atualização importante: o estudo que eu mencionei no meu artigo anterior sobre ácido folínico no TEA (link abaixo) foi retratado pela revista científica em 29/01/2026. A retratação é um mecanismo de autocorreção da ciência: quando surgem problemas relevantes nos dados ou na análise, a própria revista emite um aviso formal. Neste caso, a mensagem prática é que a revista passou a considerar que não é possível confiar naquele estudo como ele foi publicado — ou seja, ela não reconhece os dados e resultados como suficientemente válidos e verificáveis para sustentar as conclusões.
Se você quiser entender o contexto inicial e por que esse tema ganhou atenção, recomendo a leitura do texto anterior:
Ácido folínico no TEA: quando é indicado?
Feita essa atualização, vamos ao ponto principal: o que isso significa na prática para famílias, pacientes e profissionais?
O que é uma retratação científica, em palavras simples?
Quando um estudo é publicado, ele passa a fazer parte da literatura científica. Outros pesquisadores podem analisar os dados, tentar repetir os resultados ou identificar inconsistências.
Às vezes, após a publicação, surgem problemas importantes — por exemplo, dados que não fecham, análises estatísticas questionáveis ou resultados que não podem ser confirmados a partir do material fornecido. Quando isso acontece, a revista pode emitir uma retratação.
Em termos simples, é como se a própria revista dissesse:
“Esse estudo não pode mais ser usado como estava. Não dá para tratá-lo como uma evidência confiável.”
Isso não é algo comum, mas faz parte do processo científico. Ciência é feita assim: questionando, revisando e corrigindo o que for necessário.
Qual estudo sobre ácido folínico no TEA foi retratado?
O estudo retratado foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controlado, publicado originalmente em 2024, que avaliava o uso de ácido folínico em crianças com TEA. Ele ganhou bastante visibilidade por sugerir melhora em áreas como linguagem e comunicação.
European Journal of Pediatrics – nota de retratação
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Em 29 de janeiro de 2026, o European Journal of Pediatrics publicou a nota de retratação informando que, após questionamentos e reavaliação, não foi possível confirmar os resultados a partir dos dados apresentados. Por esse motivo, o artigo foi oficialmente retratado.
Na prática, isso significa que aquele estudo não deve mais ser usado como base para recomendações clínicas.
Isso quer dizer que ácido folínico “não funciona” no autismo?
Não exatamente.
A retratação não prova que o ácido folínico seja ineficaz. O que ela mostra é que a principal evidência usada para sustentar essa ideia perdeu validade.
O impacto prático é importante:
- Fica ainda mais frágil a ideia de recomendar ácido folínico como tratamento para TEA de forma ampla.
- O uso, quando discutido, precisa ser feito com muita cautela, deixando claras as limitações da evidência.
- Reforça-se que as intervenções com melhor respaldo científico continuam sendo as terapias estruturadas (como intervenções comportamentais, fonoaudiologia, terapia ocupacional e suporte educacional).
Por que o ácido folínico chamou tanta atenção?
O ácido folínico é uma forma ativa do folato (vitamina B9). Diferente do ácido fólico comum, ele já está metabolizado, o que levou à hipótese de que poderia beneficiar subgrupos específicos de crianças.
Algumas pesquisas investigaram a relação entre TEA e alterações na via do folato, incluindo a presença de autoanticorpos contra o receptor de folato (frequentemente chamados de FRAA). A partir disso, surgiram estudos sugerindo possíveis ganhos, principalmente em linguagem.
Mesmo antes da retratação, porém, os resultados eram heterogêneos, com tamanhos de amostra pequenos e dificuldade de replicação. A retratação do maior estudo recente reforça a necessidade de prudência.
Quando faz sentido discutir ácido folínico na prática clínica?
Em consultório, a pergunta não deve ser “todo paciente com TEA deve usar?”, mas sim:
há algum indício clínico que justifique investigar essa via em um caso específico?
A discussão pode surgir, sempre de forma individualizada, por exemplo:
- em situações com suspeita clínica de alterações relacionadas ao metabolismo do folato;
- quando há interesse da família, desde que com orientação clara e sem promessas irreais;
- como parte de uma avaliação mais ampla, e não como solução isolada.
Mesmo nesses casos, é fundamental deixar claro que não se trata de cura do TEA, nem de substituição das terapias principais.
E quanto à segurança?
De modo geral, o ácido folínico é considerado bem tolerado, mas podem ocorrer efeitos como irritabilidade, agitação ou alterações do sono em alguns pacientes. Qualquer uso deve ser acompanhado por médico, com avaliação contínua de riscos e benefícios.
Perguntas frequentes
A retratação muda algo para quem já estava usando?
Muda principalmente a forma como interpretamos a evidência. Vale reavaliar objetivos, observar se houve algum benefício real, considerar efeitos colaterais e discutir com o médico se faz sentido manter.
Vale a pena tentar por conta própria?
Não. Além do custo e do risco de efeitos adversos, isso pode gerar frustração e desviar o foco do que realmente tem melhor comprovação científica.
Como saber se meu filho faz parte de um grupo que poderia se beneficiar?
Isso exige avaliação clínica cuidadosa. Mesmo nos cenários estudados, os resultados são variáveis e nunca substituem intervenções estruturadas.
Conclusão
O caso do ácido folínico no TEA é um bom exemplo de como a ciência funciona na prática: hipóteses surgem, estudos são publicados, outros pesquisadores questionam — e, quando há problemas relevantes, o conhecimento é corrigido.
Para famílias, a mensagem principal é: desconfie de soluções baseadas em um único estudo, priorize intervenções com evidência consistente e converse sempre com um profissional que acompanhe criticamente a literatura científica.
Este texto tem caráter informativo e não substitui consulta médica.